Educação Política

Anistia e Dosimetria: Qual a Diferença e Como Afetam as Penas no Brasil?

Nos últimos tempos, o debate político e jurídico no Brasil trouxe à tona dois termos que, embora complexos, são

Anistia e Dosimetria: Qual a Diferença e Como Afetam as Penas no Brasil?

Nos últimos tempos, o debate político e jurídico no Brasil trouxe à tona dois termos que, embora complexos, são fundamentais para entender o funcionamento da nossa Justiça: anistia e dosimetria. Com discussões no Congresso Nacional sobre projetos que podem alterar penas de condenados, muitas pessoas se perguntam: qual a real diferença entre esses conceitos? Eles são a mesma coisa? Como cada um afeta uma condenação?

Se você também tem essas dúvidas, este artigo é para você. O Politizadus preparou um guia completo para explicar, de forma clara e apartidária, o que é anistia, o que é dosimetria da pena e por que é tão importante para o cidadão compreender esses instrumentos da nossa democracia.

O que é Dosimetria da Pena? O Cálculo da Justiça

Imagine que a Justiça é como um alfaiate e a pena é um terno que precisa ser ajustado perfeitamente a cada pessoa condenada. A dosimetria da pena é exatamente esse processo de “ajuste”: um cálculo técnico e detalhado que o juiz realiza para definir o tempo exato e o regime de uma condenação, com base nas leis e nas particularidades de cada caso.

Esse cálculo não é aleatório. Ele segue um método rigoroso de três fases, conhecido como sistema trifásico, estabelecido no Artigo 68 do Código Penal brasileiro. O objetivo é individualizar a pena, garantindo que ela seja proporcional à gravidade do crime e às características do réu.

As 3 Fases da Dosimetria:

Fase 1: Fixação da Pena-Base: O juiz começa analisando as “circunstâncias judiciais” do crime, previstas no Artigo 59 do Código Penal. Ele avalia oito fatores, como a culpabilidade do agente, seus antecedentes, sua conduta social, os motivos e as consequências do crime. Com base nessa análise, ele estabelece uma “pena-base” dentro dos limites mínimo e máximo que a lei prevê para aquele tipo de crime.

Fase 2: Circunstâncias Atenuantes e Agravantes: Em seguida, o juiz verifica se existem circunstâncias que podem diminuir (atenuantes) ou aumentar (agravantes) a pena-base. Exemplos de atenuantes são a confissão do crime ou o fato de o réu ser menor de 21 anos na época. Já a reincidência (cometer um novo crime depois de já ter sido condenado) é o exemplo mais comum de agravante.

Fase 3: Causas de Aumento e Diminuição: Por último, o juiz aplica as “causas de aumento ou diminuição de pena”, que são fatores específicos previstos na lei para determinados crimes. Por exemplo, o uso de arma de fogo em um roubo é uma causa de aumento de pena. Após aplicar esses percentuais, o juiz chega à pena final e define o regime de cumprimento (fechado, semiaberto ou aberto).

Em resumo, a dosimetria não perdoa o crime, mas sim calcula a punição de forma criteriosa e individualizada.

O que é Anistia? O Esquecimento Jurídico

Se a dosimetria é o cálculo da punição, a anistia é o seu oposto: o esquecimento jurídico do crime. A palavra vem do grego amnestia e significa exatamente isso, “esquecimento”.

Trata-se de um ato de natureza política, concedido pelo Congresso Nacional por meio de uma lei, que declara que certos fatos, antes considerados criminosos, deixam de ser puníveis. Na prática, a anistia apaga os efeitos penais de um crime, como se ele nunca tivesse ocorrido. A pessoa beneficiada volta a ser réu primário em relação àquele fato.

Importante: A anistia é sempre coletiva, ou seja, ela se aplica a fatos e não a indivíduos específicos. Por exemplo, uma lei pode anistiar “todos os que cometeram crimes políticos durante um certo período”.

O Exemplo Histórico: A Lei da Anistia de 1979

O exemplo mais famoso no Brasil é a Lei da Anistia (Lei nº 6.683/79), sancionada durante o processo de redemocratização do país, no final da Ditadura Militar. A lei concedeu perdão a todos que, entre 1961 e 1979, cometeram “crimes políticos ou conexos com estes”.

Essa medida permitiu o retorno de milhares de exilados políticos ao Brasil e a libertação de presos políticos, mas também beneficiou agentes do Estado que cometeram crimes, como tortura, durante o regime militar, o que gera debates até hoje.

Limites da Anistia

A Constituição Federal proíbe a concessão de anistia para crimes considerados mais graves, como a prática de tortura, o tráfico de entorpecentes, o terrorismo e os crimes hediondos (como homicídio qualificado e estupro).

Tabela Comparativa: Anistia vs. Graça vs. Indulto

Para não restar dúvidas, é importante também diferenciar a anistia de outros dois benefícios parecidos: a graça e o indulto. Ambos são perdões de pena concedidos pelo Presidente da República, mas possuem diferenças cruciais. A dosimetria, como vimos, não entra nesse grupo, pois é um ato judicial de cálculo, e não de perdão.

Confira a tabela abaixo para entender de vez:

CaracterísticaAnistiaGraçaIndulto
O que é?Perdão do crimePerdão da penaPerdão da pena
Quem concede?Congresso NacionalPresidente da RepúblicaPresidente da República
Para quem?Coletivo (para fatos)Individual (para uma pessoa)Coletivo (para um grupo)
Como é feito?Por meio de LeiPor meio de DecretoPor meio de Decreto
Efeito principalApaga o crime e a penaApaga a pena (a condenação existe)Apaga a pena (a condenação existe)

Conclusão: Conhecimento é Poder para o Cidadão

Entender a diferença entre dosimetria e anistia é mais do que uma curiosidade jurídica; é uma ferramenta essencial para a cidadania. Enquanto a dosimetria representa o esforço técnico do Poder Judiciário para aplicar uma pena justa e proporcional, a anistia é um instrumento político poderoso, capaz de reescrever parte da história jurídica de um país, usado em momentos de transição e reconciliação.

Saber distinguir esses conceitos permite que o cidadão acompanhe de forma crítica os debates no Congresso, as decisões do STF e as ações do Presidente. Afinal, em uma democracia, compreender as regras do jogo é o primeiro passo para fiscalizar o poder e participar ativamente da vida pública.

Referências:

1.Código Penal Brasileiro (Decreto-Lei nº 2.848/40)

2.Lei da Anistia (Lei nº 6.683/79)

3.Politize! – Anistia Política: o que esse termo significa?

4.Jusbrasil – Entenda como é feita a dosimetria da pena

5.TJDFT – Graça, indulto e anistia

Gostou desse artigo? Continue navegando pelo nosso oficial e descubra muito mais.

Politizadus — A bússola para quem busca justiça com democracia.